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Para entender a crise americana
Para entender a crise americana
Entender a crise americana é dissecar não só números e tendências da maior economia do mundo. É compreender os mecanismos de uma das maiores nações do mundo, em que os melhores cérebros ecônomicos criaram uma armadilha complexa e capciosa que gerou um aumento de consumo sem produzir riqueza real e produziu a crise que hoje assusta 10 entre 10 economistas (economistas concordando em relação a algo é de assustar o mais simples mortal).
E isso é consequência de tentar evitar as duras regras mercadológicas, as mesmas que fundamentam o capitalismo há mais de dois séculos e que as nações de "Primeiro Mundo" impuseram as chamadas "nações emergentes" durante a década de 90, por meio das conhecidas (e as vezes odiadas) "visitas técnicas" do FMI - Fundo Monetário Internacional. Para entender a crise atual do chamado "subprime", vamos entender como surgiu e o que é esse tipo de produto.
Durante o longo governo republicano dos anos 80, seguindo a cartilha econômica republicana, Reagan e Bush-Pai primaram por eliminar vantagens que as classes pobres americanas haviam ganho nas décadas anteriores, cortando impostos e com isso também todos os programas sociais que puderam, e para compensar ainda mais o topo da pirâmide social americana, eliminaram as dificuldades para a movimentação de grandes fortunas e eliminaram várias políticas compensatórias criadas em governos anteriores. E isso criou uma sensação de mesmice, com os ricos mais ricos e os pobres sem perspectivas de mudança ou crescimento.
Durante os anos 90, nas duas legislaturas do governo Clinton, ele tinha como foco o lema "É a economia estúpido". Os americanos tinham sentido o gosto amargo da recessão e da inflação nos anos Reagan/Bush e queriam um governo focado no crescimento econômico e na diminuição da pobreza. Tirando as aventuras sexuais do presidente, os americanos tiveram exatamente o que pediram e por um longo período desfrutaram da prosperidade e de crescimentos em todos os níveis - produção, crédito, consumo -; se recuperando da chamada década perdida dos anos 80.
Bill Clinton não só recuperou o crescimento econômico como aproveitou o crescimento espantoso crescimento da produtividade americana para conseguir, pela 1ª vez na história, unir baixos níveis de desemprego com taxas crescentes de crescimento econômico e isso sem criar pressões inflacionárias.
Esse cenário só se tornou possível com o enorme ganho de produtividade obtido com a criação tecnológica em larga escala e a sua capilarização, interconectando via Internet o universo das empresas e dos consumidores. Essa revolução tecnológica criou a popularização da Internet e levou ao crescimento da penetração da infomática em todos os níveis da sociedade. E em 8 anos de crescimento econômico os americanos viveram com um fenômeno conhecido como "pleno emprego", isto é; havia tantas vagas de trabalho quanto pessoas disponíveis. Dessa forma muitos economistas acreditavam ter encontrado a fórmula mágica da economia e delineavam um cenário paradisíaco para a economia mundial, pois com os EUA ocupando o topo da cadeia consumidora mundial, respondendo por mais de 25% do PIB mundial, qualquer atitude americana se torna uma ação de espectro mundial, um sorriso americano se torna uma gargalhada em 157 países (um chorinho igualmente se torna um desepero internacional).
Para os americanos, que haviam vivido o desespero dos governos republicanos dos anos 80, a percepção de que o governo democrata de Clinton era um mar de rosas se estabeleceu como uma verdade incontestável, e até certo ponto isso era verdade, contudo, as autoridades monetárias cometeram o erro mais básico de todos e esquecerem a história no próximo governo republicano da era pós-Clinton. Quando Bush Jr assumiu a presidência, deixou de lado os fundamentos da responsabilidade fiscal e da correlação ente valor financeiro e dívida interna/externa e deixou as sementes do que se tornaria os precurssores da crise da chamada Nova Economia.
Especialistas lembram da crise no mercado de ações - relatando-a como uma crise sistêmica -; contudo, a crise nas empresas de tecnologia, entre 2001/2002 - a chamada "explosão da bolha da internet", foi o que chama-se de crise centralizada; erros de cálculo, investidores especulativos, empresas fundadas em cima de falsos fundamentos e por aí segue; provocaram uma quebradeira que não fugiu ao básico de uma crise acionária, o mundo balançou, mas não quebrou, mas ali já estava os sintomas de que as autoridades americanas preferiam ignorar os fatos a mudar os rumos da "prosperidade". Ninguém queria ser o 1º a puxar o freio de mão.
O perigo estava sendo plantado num nível diferente da malha econômica. Um grande número de economistas sabe que em períodos de grande crescimento econômico, chega um momento que acontece naturalmente um processo de estabilização. A estrutura de consumo não é infinita, existe um número finito de consumidores, e de dinheiro em circulação. E da mesma forma que o pleno emprego determina que o máximo de postos de trabalho estão sendo ocupados em dado instante, esse fenômeno também preconiza que o crescimento econômico chegue num ponto de eqílibrio, quando então o crescimento se torna correlacionado ao crescimento orgânico da sociedade - se a sociedade americana crescer 0,5% é quanto a economia deveria a crescer, quando a demanda iguala-se o crescimento retraído nos anos 80.
Com a Era Clinton ainda na memória e a internacionalização dos mercados de fundos e papéis, aliada a liberalização do comércio mundial nos anos 90 - com a plena implementação da Rodada de Comérico Internacional, os economistas americanos de Bush Jr. tinham como missão criar uma fórmula que permitisse manter o crescimento econômico, sem os incomôdos das regras econômicas básicas. A lógica das divesas escolas econômicas preconiza que sempre existe algum setor da sociedade que possui uma demanda reprimida.
No mundo capitalista existe a chamada "divisão de classes", a qual acontece por várias razões e sua existência é extensamente criticada, porém é fato que no capitalismo ela existe, e também é fato que ela se constitui a base da pirâmide social e de consumo. Os pobres e a classe média baixa, compõe uma grande estrutura com forte necessidade de consumo retraída, que só não consome mais por conta de pura falta de dinheiro. A mágica para dar dinheiro a estes grupos sociais e evitar a estabilização do crescimento econômico americano surgiu criando-se a mecânica do subprime. Ao invés de buscar soluções de consumo de baixa renda, como certos empresários ao redor do mundo (Casas Bahia/Tata Motors, entre outros), ou com políticas compensatórias, oferecendo espaço para a ascensão social, ou criando condições na iniciativa privada, de produtos mais baratos e acessíveis, com nichos diferenciados de consumo para as classes mais pobres da economia americana, os pensadores econômicos resolveram oferecer o que as classe abastadas consumiam, e aqueles que antes viviam na subsistência do processo econômico começaram a consumir de tudo que sempre só tinham visto nos comerciais. Tudo para manter o crescimento e evitar uma freada que ninguém queria assumir. Estava armada a cama-de-gato.
Mas como emprestar dinheiro a quem você sabe que pode te dar um calote? - estamos falando de pessoas com empregos de baixa remuneração, pessoas que em uma dificuldade teriam de escolher entre comer ou pagar o banco. Simples, cria-se uma estrutura de diluição de riscos, um tipo de "seguro", mas ancorado em papéis negociáveis no mercado de capitais. Cria-se fundos em que estas dívidas se tornam papéis negociáveis misturados a títulos seguros, de pagadores confiáveis, como grandes empresas, bancos, fundos de investimento e de pensão.
Mas antes de continuarmos, vamos voltar ao começo do governo Bush e fim da Era Clinton. Com os democratas no poder, Clinton procurou aplicar a fórmula que foi vendida para todos os países do mundo que passaram pela crise inflacionária das décadas de 80/90. Austeridade fiscal, carga tributária equivalente ao tamanho do estado, políticas compensatórias para os menos preparados, recuperação do poder de compra pela estabilização dos indíces inflacionários e facilidades para o empreendorismos das pequenas e médias empresas americanas, sem contar na diminuição do peso do estado nos contas da balança de pagamentos. Ao fim do processo Clinton entregou o governo à Bush Jr. com 1 trilhão de dólares de superávit. Em termos comparativos, é como se Bill Clinton tivesse conseguido o PIB anual brasileiro de lucro e desse ele de presente para Bush Jr.para fizesse o que quisessse - e realmente ele fez o que quis (e não foi nada bonito). Voltando ao subprime.
O John Doe americano (o Zé Povo) agora podia comprar o que desejasse, pois embora seu salário não desse, ele podia pegar dinheiro emprestado no banco, usando sua casa como garantia (hipoteca), podia parcelar o cartão de crédito, pois o dinheiro estava barato, afinal os juros do Fed (o Banco Central americano) estavam num patamar baixíssimo e com indicadores mostrando uma queda acentuada. Ele também podia comprar produtos mais baratos, produzidos em qualquer nação que pudesse vender aos EUA - fruto da liberalização comercial internacional da Rodada Uruguai dos anos 90 -; assim os consumidores americanos, sedentos em consumir "tudo", começaram a comprar carros, eletrônicos, porcelanas e tudo que pudesse ser fabricado na China e em quaisquer países que pudessem manufaturar a preços inferiores ao Custo-EUA.
Tais países, com leis trabalhistas brandas (quando alguma lei existia), com padrões de poluição do século 19, alimentaram a máquina de consumo americana. Tudo valia para dar aos trabalhadores americanos o que eles quisessem comprar, afinal dinheiro não faltava. Contudo, analisando friamente o processo econômico de importação/exportação, chegamos rapidamente a conclusão que se a importação atinge todo o espectro de produtos da malha manufatureira americana, como ocorreu. Logicamente isso levou em algum momento os produtos internos a uma queda de consumo, pois é mais barato trazer pronto de outro país. Isso levou as grandes corporações a exportarem suas plantas produtivas, tirando empregos do país de origem (EUA), afinal o resultado para a empresa é o mesmo; lucro. Não importa se o produto é chinês, na prática os acionistas só vêem a lucratividade crescendo. Porém, isso acaba elevando a taxa de desemprego - foi-se embora o pleno emprego - pois um estrangeiro está produzindo o que o "americano" quer. Mas ninguém quer ver a bolha explodir, pois o que mantêm o ritmo da orquestra é o consumo, para isso mais empréstimos são feitos para saldar os anteriores - e lá vai o Fed derrubar as taxas a cada reunião do conselho monetário -; dessa forma abriu-se uma corrida contra o tempo, afinal não existe almoço gratuito em política econômica, alguém tem de pagar a conta, mas quanto mais a conta fosse para o próximo presidente melhor.
Os engenheiros econômicos tiveram uma idéia para diminuir ainda mais o risco do subprime (que embora teoricamente fosse pequeno assustava os teóricos em várias medidas). Para isso os títulos começaram a ser negociados em escala global e pulverizados e revendidos de tal forma que ninguém saberia seu montante ou tampouco aonde se localizariam exatamente. Na verdade isso resultou numa pulverização tal, que sem dúvida toda a escala financeira mundial hoje tem algum tipo de subprime entre seus ativos, criando uma capilarização sem precendentes na história mundial. Isso, acreditavam os especialistas, impediria a crise, pois mesmo que acontecessem perdas em nível mundial, elas seriam tão poucas individualmente que seriam absorvidas pelo mercado, de tão espalhadas que estavam, seria uma crise de "aterrisagem suave", ledo engano.
Porém em última instância esses títulos estão atrelados a títulos do Tesouro Americano, já que em todo sistema financeiro mundial a moda de troca internacional é o dólar, e assim o fiel depositário destes valores, em última instância é os EUA. Já que tais títulos estão situados em dívidas contraídas por americanos, em dólar, e os governos dos países costumam ser os financiadores do sistema financeiro e em último caso eles também garantem os depósitos dos sistemas bancários locais.
Desta forma uma crise sistêmica do subprime, não afetaria só os bancos e o sistema privado, mas as instituições estatais americanas de forma generalizada, ou alguém imagina um presidente deixando milhares de pessoas perderem tudo que possuem num processo de execução de dívidas. Obviamente, para minimizar a quebradeira que ocorreria, o governo americano iria intervir usando reservas e fundos, pois um banco extremamente alavancado com dívidas subprime, quebrando não iria evaporar só as dívidas, mas seu lastro, criando uma avalanche que quebraria todos os seus ativos e clientes.
E o governo americano com um superávit de 1 trilhão de dólares tem como cobrir os custos de quase 400 bilhões de doláres em títulos subprime, certo? Errado! Esse foi o número do governo Clinton, não do Bush, no governo de Jr. esse superávit se tornou um déficit de quase 300 bilhões ao ano, sem contar o déficit da balança comercial com o resto do mundo e ainda existe a questão dos títulos do governo americano - usados para bancar a Guerra do Iraque (de 500 bilhões de custo anual - compras/manutenção + custo de saúde dos soldados afetados em combate), sem contar que Bush realizou um corte de impostos que afetou somente os 5% mais ricos dos EUA - o restante da população americana continuou pagando o mesmo. Hoje calcula-se igualmente que os custo/riscos do subprime totalizam 180 trilhões de dólares nas mãos de governos, bancos privados e estatais espalhadas por todo globo.
Para colocar tudo em perspectiva, temos que entender que nas mãos do governo americano, juntando todo o dinheiro em circulação, não existe mais do que 18 trilhões - isso incluindo as reservas em ouro de Fort Knox - está montado o circo de horrores de todo economista, um pesadelo típico de Dia das Bruxas. Porque a economia de vários países é lastreada em depósitos em dólar, que nada mais são do que títulos que o governo americano garantem valer "algo", sem contar que muitos possuem títulos da dívida pública americana como a China, Brasil, Alemanha, Rússia e milhões de investidores do Alaska ao Nepal, criando um cenário de deixar qualquer um temeroso, para dizer o mínimo.
Em dezembro/janeiro, o medo de quebradeira e de fim do lastro bancário, levou vários bancos privados a bloquearem os empréstimos intra-instituições, pois ninguém sabia quem iria perder mais com a quebra do subprime e todos puxaram o freio de mão para ver quem quebrava a cara primeiro e melhor, como isso se daria num cenário globalizado. Essa atitude gerou um pânico na alta cúpula financeira americana, levando o Fed a cortar juros numa escala sem precendentes. Bancos centrais do mundo todo começaram a simular como sair dessa sem perder todos os dedos, fundos de emergência estão sendo criados e o pânico anda criando uma reação generalizada nos mais diversos mercados acionários.
O Fed, em termos práticos, cortou 0,5% da taxa de juro básica deixando-a em 3%, o que coloca a taxa americana, quando descontadas pressões inflacionárias e custos, com uma taxa real que pode ficar em -1%, isso mesmo, o Fed estaria perdendo dinheiro. Em níveis comparativos é como se no Brasil, os juros caíssem para 7% (hoje a taxa é de 11,5%/ano). Dá para ter uma medida do que isso revela, um cenário de recessão da economia dos EUA, mas com potencial de se alastrar numa escala só comparável com 1929 (que possuía as mesmas bases da atual crise).
Resumindo e concluindo
Claro, temos uma crise! Pois para criar uma nova massa consumidora, não se fez distribuição de riqueza, como no governo Clinton, Bush deixou a cargo do "mercado" criar a solução e seguindo a cartilha republicana retirou impostos e diminuiu a capacidade de reação do Estado, deixando as forças privadas esquematizarem uma estrutura que não trouxe a população para o "nível de consumo", ela apenas aritificialmente alocou recursos e deu o "sonho americano" de "presente", mandando a conta para ser paga no futuro, e quando viu o quão cara seria, criou um subterfúgio para que todos pagassem a fatura. Óbvio que as nações do BRIC - Brasil/Rússia/Índia/China - tiveram seu quinhão de vantagens e podem ser a solução para o desaquecimento americano, mas isso...
Aguarde o segundo artigo: Recessão e Cenários para o Brasil
Fontes: International Information Programs http://usinfo.state.gov Federal Reserve http://www.federalreserve.gov
Escrito por Alprim às 03h07
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Por que ‘Déficit Nominal Zero’ é uma falácia? (ou melhor: Delfim volta dos mortos!) – Parte 1

Hoje poucas pessoas realmente se lembram de como era a estrutura econômica na época do regime militar. Ela se baseava na premissa de que muitos deveriam fazer sacrifícios – traduzindo: a classe média – para garantir o crescimento da economia brasileira, o então ministro Delfim Netto cunhou a frase: “Primeiro fazer o Bolo Crescer para depois Repartir”. Para os que imaginam que tal afirmação tenha alguma lógica, basta lembrar que a distribuição de renda hoje no Brasil, 12ª das maiores economias mundiais, é a 2ª pior do mundo, só perdendo para Serra Leoa, que é a 174ª economia do mundo (!?!). Para situarmos em números essa disparidade, basta dizer que 10% da população mais rica detêm 60% da renda brasileira. Pelo jeito o bolo cresceu, mas só uma parte ínfima da população pode comê-lo.
Mas o governo Lula, sob pressão de sair do marasmo econômico em que se lançou, foi extremamente competente em fazer “mais do mesmo”, um continuísmo do governo FHC – cuja política econômica tanto criticou – em mais um lance “vintage” resolveu colocar Delfim Neto como novo guru econômico de Lula. Aliás, o lulistas pelo visto adoram revisitar o passado ditatorial militar, até um novo Projeto Rondon foi feito (seria um trauma não-resolvido com quem os ‘gerou’: o governo militar!).
Uma proposta, criada por Delfim, que circulava sem grande impacto entre os economistas de plantão, o déficit nominal zero, foi resgatada pelo ministro Palocci, que viu nela um bote salva-vidas num governo que naufraga na podridão.
Essa idéia, colocando em linguagem simples é ir mais longe nos índices de superávit governamentais, de forma que o governo possa mudar a forma pela qual contabiliza os seus gastos com despesas vinculadas constitucionalmente, com os juros da dívida pública.
O governo Lula tem se esforçado em criar “Superávits Primários” – política usada desde o governo FHC –, que é pegar o que se gasta – sem contar os juros das dívidas –, e subtrair do que se têm de caixa e ver quanto o governo consegue economizar, hoje essa economia está no mínimo em 4,25% do PIB, mas existem períodos em que é maior, há registros de meses em que essa economia ultrapassa os 6%.
Essa conta é baseada na desvinculação de receitas do governo retirando a obrigação constitucional do governo em investir em setores como educação, saúde, moradia e transportes. E para poder fazer isso legalmente é preciso aprovar uma Emenda Constitucional, – que já foi aprovada há alguns anos e permite a desvinculação de 20% do total –, mas para realizarmos o plano elaborado por Delfim Netto, Déficit Nominal Zero, esses valores teriam de ser no mínimo 40%, pois o superávit necessário chegaria a casa dos 8/10% do PIB e engessaria o governo de tal forma que todos os investimentos deixariam de existir até pelo menos 2010.
Agora explicando o Déficit Nominal Zero. Em linguagem simples, na conta do governo ao invés de pagar só o bruto da dívida, sem os juros, ele passaria a contar os juros também. Colocando claramente, os bancos que são os maiores credores do governo, teriam suas posições garantidas pela força da lei e todo o restante do país teria de abrir mão dos serviços essenciais para isso. Em miúdos, uma insanidade.
Escrito por Alprim às 01h08
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Por que ‘Déficit Nominal Zero’ é uma falácia? (ou melhor: Delfim Netto volta dos mortos!) – Parte 2

O Déficit Nominal Zero, segundo o deputado Delfim Netto e seus articuladores, seria uma saída real para baixarmos os juros reais, elevar a confiança no governo, reestruturar o padrão da dívida, criando um clima de crescimento sustentado, algo que o governo Lula prometeu e até hoje não deu a menor demonstração de ser capaz de realizar – para os que queiram defendê-lo alegando o crescimento do PIB, vale lembrar que as commodities agrícolas, que garantiram o crescimento do PIB brasileiro, sofreram o efeito de uma bolha nos últimos 2 anos, bolha aliás, que já estourou.
Porém essas afirmações são falácias baseadas em economês, aquela língua que os economistas falam – um linguajar específico, serve para delimitar um campo da realidade, criando zonas de poder e manipulação – pois se analisarmos as palavras por detrás dos significados e de seus contextos, a idéia de Delfim Neto se esvai como fumaça.
O Déficit Nominal Zero, pressupõe criar um “clima de confiança” no Brasil como “bom pagador”, porém exigirá índices por vezes inatingíveis de superávits, criando dessa forma uma real desconfiança da capacidade brasileira de honrar esses contratos, até porque, para os interessados: bancos e o mercado financeiro mundial, os juros e as dívidas estarão garantidos. Paradoxalmente dessa forma cria-se um outro tipo de confiança, a de que os juros reais não tenderão a baixar.
Pensemos. Se o governo garante que os juros e a dívida serão pagos, porque não garantir que os ganhos continuem altos? Porque um grupo de empresas, que vivem do lucro – e isso, afirmo categoricamente, é perfeitamente legítimo – não vão garantir a seus acionistas e investidores ganhos cada vez maiores, ou pelo menos iguais? Porque razão obscura, o mercado iria estimular juros menores, se ele, mesmo aumentando os juros, tem seus pagamentos garantidos.
É como eu pedir para que as empresas brasileiras, por gentileza e com muita educação lucrem menos. Para quem não sabe, empresas são feitas para lucrar, traduzindo: O que Delfim Neto pressupõe é um absurdo, é paradoxal, pois vai contra o alicerce de qualquer sistema capitalista.
Agora vamos aos outros pontos da proposta, a confiança de pagamento do governo, como vimos não resulta em diminuição de juros, mas sim em seu provável aumento, além do que a reestruturação da dívida brasileira de curto para longo prazo também não seria efetuada, pelo simples motivo de que não faria a menor diferença, tecnicamente, aliás, o mercado financeiro, vendo o possível atoleiro que esse plano tenderia a ser, estabeleceria suas posições de forma a recuperar rapidamente os seus ganhos em caso de problemas na condução dessa linha de política econômica, portanto a relação de prazos da dívida atual dificilmente se alteraria. Para se criar um ritmo de crescimento sustentado é preciso haver meios baratos de financiamento elaboração de infra-estruturas básicas e um aporte de mão-de-obra e de mercados que cria uma situação favorável, o básico de qualquer visão econômica. Porém, com o “Plano Delfim”, o custeio das dívidas se manteria inalterado, ou até cresceria, o governo não poderia investir, por estar engessado no processo de zerar o déficit e também o consumo local e sua capacidade de gerar poupança estaria comprometido, justamente pela falta de crescimento, dessa forma temos um círculo vicioso, uma cobra que não só morde o próprio rabo, mas o engole até que morra.
Escrito por Alprim às 01h03
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